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quarta-feira, dezembro 10, 2014

ENTREVISTANDO MANGUEIRINHA - MESTRE DE BATERIA DO PROJETO TIM


“Não dou mole pra criança nenhuma não!” – MANGUEIRINHA, DIRETOR DE BATERIA DA UNIDOS DE VILA ISABEL E IDEALIZADOR DO PROJETO BATERIA DE JOVENS SURDOS TIM
Filho do samba (o pai foi intérprete e compositor de escolas de samba e a mãe, integrante da ala feminina), tendo crescido em Vila Isabel, desde pequeno Carlos Henrique da Silva Vicente, o Mangueirinha deu os primeiros passos no mundo do samba através da bateria mirim da escola de samba Unidos de Vila Isabel.

Apesar de jurar que o voluntariado não foi aprendido em família, faz questão de enfatizar que aprende mais com os alunos do Projeto Bateria de Jovens Surdos patrocinado pela Tim, do que ensina. Carioca, morador do Morro dos Macacos, Vila Isabel no Rio de Janeiro, desde a mais tenra idade esteve em contato com o mundo do samba. Foi através de um projeto social que aos 6 anos aprendeu a tocar o primeiro instrumento. Hoje, se torna um multiplicador da experiência que viveu. Além de diretor de bateria pela escola de samba Unidos de Vila Isabel, está envolvido em diversos grupos de percussão dentro e fora do samba. 

E não para por aí, ensina o ofício a crianças carentes com e sem deficiência pelo Rio, inclusive no Centro Municipal de Referência da Música Carioca

Nessa entrevista, Mangueirinha fala da sua infância, de seus influenciadores e mestres e garante: “Sou um cara muito rígido com meus alunos!”

Flavia Moura – Como foi a relação com o samba na sua família?

Mangueirinha – Meu pai nasceu na Mangueira. Quem era ligado a Mangueira era meu avô, que saía numa ala tradicional da escola de samba. Quando meu pai foi morar em Vila Isabel... Pô, é estranho... Meu pai quando foi morar lá (em Vila Isabel), ele disputava samba enredo na Vila, mas foi integrar o Salgueiro. Ele foi diretor de harmonia no Salgueiro e tinha uma ala também! Na Vila, ele tinha uma participação no canto. As pessoas o chamavam porque interpretava muito samba dos outros e compunha também, porque tinha uma boa voz e o pessoal sempre o convidava, não só na Vila, como em outras escolas. Aí logo depois, quando eu cresci e comecei a desfilar na bateria mirim, ele veio pra Vila pra eu não ir sozinho. Aí, ele e minha mãe montaram uma ala na Vila e passaram a diretores de harmonia na Vila. Ele como diretor de harmonia e ela no departamento feminino.

FM – E essa parte de se dedicar a projetos? Foi aprendido na família ou você foi pioneiro no tocante ao voluntariado?

Mangueirinha – Ah, o meu pai era muito festeiro. Tinha grupo de mulatas, era mestre de cerimônias de blocos, apresentava os blocos, convidando os outros... mas essa veia de projeto, veio da bateria mirim que eu comecei. 

FM – E os demais projetos, as pessoas iam te chamando ou foram acontecendo? 

Mangueirinha – Então, eu ingressei nessa bateria mirim, aí só tinha uma bateria. Aí em 1988, essa bateria deu vida a uma escola de samba mirim. Eu era ritmista dessa escola de samba mirim e fui fundador dessa escola de samba mirim, né? Daqui a pouco eu passei a ser mestre dessa bateria e escola de samba mirim. Aí foi começando, eu fui pegando experiência com isso e as portas se abrindo pra mim. Aí comecei a dar aula ali, comecei a dar aula aqui... foi assim.

FM – E você sente frio na barriga quando vai liderar uma nova turma? Tem esse lance de ficar nervoso como no dia de estreia?

Mangueirinha – Tem, tem. Porque se você não ficar nervoso e não sentir o frio na barriga, a coisa não tá normal. Tudo o que é novo, você tem certa dificuldade né? Aí sempre tem esse lance de ficar nervoso, a boca seca... é a adrenalina né? Enquanto isso acontecer é porque você tá funcionando! No dia que isso parar de acontecer, você não tá funcionando mais. 

FM – A gente sabe que adolescente tem aquela fase tinhosa e aqui (no Centro de Referência da Música Carioca onde acontecem as aulas do projeto) a gente vê que tem as crianças menores e os adolescentes. Eles te dão algum tipo de trabalho ou seu carisma encanta até eles?

Mangueirinha – Olha, graças a Deus eu tive uma educação muito boa, tanto pelos meus pais, quanto meus avós. Fui criado pelos meus avós, porque meus pais tinham que trabalhar, mas eu tive uma professora particular antes de ser alfabetizado, porque eu morei no pé do Morro dos Macacos e tinha uma senhora chamada Dona Belinha, que todo mundo passava por ela, antes de ser alfabetizado. E ela era uma pessoa muito rígida, então fez parte da minha educação. E o outro mestre de bateria, o mestre Trambique, também era muito rígido. Então eu me vejo neles. Essa rigidez toda que eu tenho com as crianças, eu me vejo neles, mas eram pessoas também muito carinhosas. 

Essa dona Belinha, caraca, era uma senhorinha... Nossa Senhora! O morro todo dos Macacos e Pau da Bandeira passaram por ela. Num quadro negro só, ela dava aula do Jardim à 8ª série. Só num único quadro. Eu nunca vi isso. Hoje você tem amplas formas de educar e na minha época, era uma cartilha do ABC e ela muito rígida e ao mesmo tempo carinhosa. Eu trato as crianças assim. Eu sou rígido, falo a verdade pra eles, eu não conto mentira, porque também nunca me contaram mentira... eu os trato assim. Não dou mole pra criança nenhuma não! Aquele que tá titubeando um pouquinho, saindo da linha um pouquinho, eu vou pra cima dele firme e falo a verdade.

FM – Como foi que você aprendeu a ensinar de maneira diferenciada as crianças com deficiências diversas (visual, auditiva) e até as mais graves, como algumas crianças com deficiência mental que frequentam esse espaço? E você coordenando isso com maestria. Você aprendeu ou foi instintivo?

Mangueirinha – Olha de fato eu nunca trabalhei anteriormente com crianças com deficiência. Eu tive vontade de fazer esse projeto para crianças surdas, falei com meu coordenador, que me apoiou; fomos pra um colégio trabalhar. A primeira semana muito complicada, porque eu não sabia libras; a segunda semana continuou complicada e a terceira também. Eu fiquei um pouquinho desesperado porque tava entrando num mundo novo. Foi quando a diretora do colégio falou pra eu manter a calma, que quando menos esperasse ia ter uma resposta. Quando eu menos esperei tive a resposta de um, aí veio outro e foi dando uma resposta. Aprendi mais com eles, do que eles aprendem comigo e continuo aprendendo com eles. 
Cada criança com uma deficiência diferente que hoje chega, eu aprendo. Eu deixo eles. Cada criança tem seu tempo e você tem que respeitar isso, então eu deixo eles livres, bem a vontade e vou aprendendo e vou tirando deles o que eles têm de melhor. Eu não forço nada, eu os deixo à vontade. O projeto é de integração, né? Então eles têm que se sentir bem. Eles se sentindo bem, eu aprendo com eles e eles aprendem um pouquinho comigo. É uma troca.

FM - Você já tem algum projeto pra 2015, depois que passar o carnaval?

Mangueirinha – Não. Projeto é continuar aqui, no projeto da TIM porque eu acho que é importante pra caramba. Sem a ajuda deles como parceiros eu não conseguiria. Porque as crianças com deficiência necessitam, os pais... e eu tenho que dar um conforto a eles. Porque não tem como você dar aula ou fazer qualquer coisa pruma criança sem dar o mínimo de conforto. Eles têm que ter um lanche, eles têm que ser bem tratados, os instrumentos tem que ser de qualidade, porque não basta só a sua boa vontade, mas você tem que ter parceiros que possam te ajudar e você possa caminhar. Porque sozinho você também não é nada!

Serviço: O projeto da Bateria de Jovens Surdos TIM está em recesso em função das férias escolares. Trata-se de um projeto gratuito de integração, que voltará suas atividades no dia 16/01/2015. Para inscrever-se basta entrar em contato pelo telefone (21) 3238-3831.
O Centro Municipal de Referência da Música Carioca Arthur da Távola fica situado à R. Conde de Bonfim, 824 - Tijuca, Rio de Janeiro - RJ, 20530-002

segunda-feira, agosto 11, 2014

QUEM TEM MEDO DA ADOLESCÊNCIA?


Como na música que ilustra o conto de Chapeuzinho Vermelho, "Quem tem Medo do Lobo Mau?", a adolescência representa o grande bicho papão para muitos pais. A gente sabe que esse dia vai chegar e sacode a cabeça, tenta afastar o pensamento, porque sabe o quanto é difícil para pais e filhos esse enfrentamento.

Mas espera aí! A gente também foi adolescente! A gente já se sentiu dono da verdade, sabedor de todas as coisas, a gente já confrontou nossos pais e fizemos besteira escondido. Seria então o medo de levar o troco, passar por essa fase?

A adolescência nos convida a fazer um exame de consciência, a olhar para trás e rever tudo o de ruim que um dia fomos. E claro, mais ainda pros que detestam a autoanálise, significa enfiar o dedo na ferida e torcer.

Dando um passeio por sites de notícias, encontrei essa matéria alarmante! Em casos de adoção, muitas famílias brasileiras preferem adotar crianças com deficiência, do que levar para suas casas o pacote completo da adolescência. Como se um adolescente fosse proibido de ser amado... Imagina o nível de carência que esse indivíduo vai sofrer. É justamente quando começa a se dar conta do funcionamento do mundo, que virá a constatação de que ninguém o quer e de que ele terá de se virar sozinho.

Aqui em casa, temos um pré-adolescente. Pacotinho é o cara.  Como sempre foi bem a frente de sua idade, é natural que certas características da adolescência comecem a aflorar. E haja paciência. Coisa que adulto não tem muito. 

Eu então, tenho sérias dificuldades em repetir coisas. E se você pretende ser pai, pode se preparar para ligar o botão do repeat.  Se você acha que seu filho vai crescer e as coisas vão melhorar, que ele vai responder no automático tudo o que você demanda, pode tirar o cavalinho da chuva, que sua sina daí por diante será REPETIÇÃO, INSISTÊNCIA e PERSISTÊNCIA.

É assim que funciona por mais que a gente não goste. É coisa do cérebro, não tem jeito. O cérebro amplia e tudo fica meio solto lá dentro. Por isso eles esquecem, confundem ou não reagem e a gente pira. As mamãe pira! Os papai pira e quase perde o cabeção!

Mas não desistam, mamys and papys. Lembra do amor que vocês sentiam pelo seu bebê? Então, em nome desse amor, temos que seguir o método. O adolescente precisa de referência e sobretudo, precisa saber que a gente se importa e está no comando. Não desistir é a palavra chave, mesmo que nosso ego esteja fazendo pirraça e se jogando no chão, mesmo que o programa esportivo esteja mais interessante, ainda que você esteja puto com seu filho por algum motivo. As nossas crianças precisam se tornar cidadãos íntegros no futuro e a única maneira, é ter pais apoiadores e interessados. E claro, isso significa você mais uma vez, deixar claro que está presente e que ele poderá sempre contar contigo. Só que de verdade, não da boca pra fora.

Mas antes, já que o assunto é adolescência e Pacotinho, aí vai uma das que ele aprontou e que quase matou a família de susto. 

Pacotinho estava no play esvaziando caixinhas de estalinho e juntando a pólvora dentro de um saquinho. Muito provavelmente se achando o mais inteligente de todos com seu novo experimento científico. Para um adulto qualquer, aquilo estava na cara que resultaria em merda. Mas quem disse que a gente se ligou? Eu, correndo de um lado para o outro, desfazendo os vestígios do que foi a festa da minha amiga Advi, que foi no play do meu prédio na noite anterior e marido, nas poucas vezes em que apareceu, foi com o mesmo objetivo de ajudar a limpar o fim de festa.

Óbvio que nós dois vimos o que Pacotinho fazia. Chegamos a falar que aquilo não ia dar em boa coisa, mas não foi com aquela autoridade paterna. Falha nossa. 
À tarde, a caminho da casa do meu pai para o almoço de Dia dos Pais, todos arrumados, cheirosos e penteados, entramos no carro com crianças, pólvora e tudo. O Scénic que mais parece um elefante branco quando entra no buraco, balança confortavelmente de um lado para o outro, contudo, isso não impede de haver atrito. E foi justamente o atrito, que fez explodir a pólvora dentro do carro. Pois é, imagina a cena. Nós lá tranquilões e de repente, BUM! Explode e voa pólvora por todo o carro. Fora aquele barulho fininho em nossos ouvidos, que a explosão provocou. 

Felizmente, ninguém se machucou. Foi mais o susto e em seguida, a raiva de uma ideia tão tosca. No entanto, se analisarmos bem, eu e marido não fomos enfáticos ao persuadir Pacotinho daquela ideia idiota. E claro, ele foi ouvindo sermão do pai por um bom tempo e se sentiu muito envergonhado pelo que fez.
No fim, todos sobrevivemos, mas poderia ter sido diferente.
Ai, adolescência... Quem aguenta?

Blog A Vida Quer, por Sam Shiraishi - Post Adolescência é Sinônimo de Aborrecência?
 

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