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quarta-feira, janeiro 02, 2013

O SIGNIFICADO DA DANÇA


Taí uma definição intrincada de responder.
A dança já foi tudo pra mim. Absolutamente tudo. Desde a hora em que eu acordava, passando pela hora de comer até a hora de dormir. Sim, eu comia dançando, o que representava um tormento pra vó Lourdes, que na tentativa de se certificar que eu comesse tudo, muitas vezes usou do recurso de me alimentar na boca, até o prato ficar limpo. E eu de pé dançando... vó esbravejando.

Dizem que eu comecei a dançar antes mesmo de andar. Aos 4 anos, já não me balançava como criança. Dançava como um adulto. Era natural pra mim. E nem queria saber de brincar de pique-esconde, ou pique tá nas festas como as outras crianças. Mal passava a vergonha, eu começava a dançar e não raro, as crianças me chamavam de metida, porque eu não interagia com elas. 

Eram os anos 70 chegando ao fim. Finzinho de Twist, início da era Disco no Brasil. Entre Cely Campello e os Jackson Five, eu preferia ficar com os dois pelo sim, pelo não. 
Então começou a cantilena de quem me via:

- Bota essa menina no ballet!! Bota essa menina no Ballet!!

Ballet não era muito comum perto de onde eu morava, mas procurando a gente encontra. Portanto minha mãe saiu à cata. Entre meus 6 pra 7 anos, final de 1979, minha mãe de uma tacada só matriculou nós duas, porque herdei dela o gosto pela dança. Antes mesmo disso, eu namorei por semanas uma contra-capa de revista em quadrinhos, onde a menina amarrava a sapatilha de ponta, de colaint rosa e toutou. Salivei né? Já estava me sentindo toda clássica quando cheguei na tal academia de Ballet.

Foi um choque! Um puuuta choque. Não tinha sapatilha de ponta. 
Mas tinha muito agito por lá. As músicas eram as mesmas que eu ouvia na vitrolinha. Era o tal ballet moderno. Aquele que fica entre o clássico e o jazz. Ele usa expressões do ballet clássico, no entanto as músicas são atuais. 
Como chegamos no final, a apresentação de fim de ano já estava montada. Eu então na baby class, fui parar naquela música Melô da Asa Delta frustradíssima porque quase não se balançava o esqueleto. Era um negócio pra bebê mesmo. No ano seguinte é que finalmente eu mudei para a turma intermediária e comecei a balançar o esqueleto propriamente. Não era o suficiente.

A turma das "adultas" me era infinitamente atraente. Os passos eram mais elaborados, o grau de dificuldade maior, de maneira que ao esperar a minha mãe fazer a aula dela, eu ficava ali atrás no salão fazendo outra aula escondidinha. 

Contando um pouco desse início ninguém vai entender o que era dançar na Amlid Jazz Dance. Ninguém vai entender a grandiosidade de participar desse grupo. Acho até que ninguém ali, fora a filha da professora que me achou recentemente no Facebook, Amlid, ninguém ali seguiu carreira como bailarina. Mas encontrar alguém que como a professora Dilma Yara bole tudo, desde o primeiro ano até hoje, além disso, metendo a mão na massa... não se vê. Se terceiriza.

Amlid de um lado e Dilma do outro dia 01/01/2013
A Dilma sempre foi linda e continua sendo. 
Na época, era mais focada. Mais quieta. Pudera, começou a dar aulas aos 18 anos, pra gente mais nova e mais velha que ela. Cuidava de 3 turmas e hoje, tantas e tantas. Bolava cada coreografia, encaixava as músicas, desenhava o figurino de cada dança e sabe-se hoje, ainda idealiza o cenário mais todo o resto do backstage. É praticamente um Joãosinho Trinta de saias.

A gente não vê isso todo dia. As pessoas delegam pra não pirar. Mas a Dilma não. Quando delegou, não ficou legal. 
E foi com esse padrão de perfeição que eu me habituei. Na primeira etapa quando dancei com minha mãe, ficamos uns 4 anos. Minha mãe quis largar e eu me aproveitei do momento para dar apoio a mamã de sair do ballet, em que a professora inventou um número solo para outra aluna e que na época feriu meus sentimentos, já que eu não tinha sido a escolhida apesar do meu talento (o nome disso é inveja, hoje sabemos!).  Fiquei parada vários anos, até o dia em que fomos ver uma apresentação da companhia que me pegou de jeito outra vez.

Claro, fiz o caboclo perturbador pra cima da minha mãe e ela me colocou em cena outra vez.
Acho que eu tinha uns 12 anos e fui direto pra turma da noite, onde pude ser melhor aproveitada, onde despontei definitivamente.

Ali a professora encarou sua 2ª gravidez e me deu a oportunidade de substituí-la com a baby class e o grupo abaixo de mim. Foi por poucos meses, claro. As coreografias já estavam montadas e tudo deu certo no final. Ela inclusive ia a todos os ensaios em que pôde. Mas foi uma jornada muito solitária. Não tive apoio da minha família, que já estava partida.
Enquanto as alunas tinham suas famílias presentes mesmo em apresentações repetidas, eu me via só sendo aplaudida por estranhos, salvo nas de fim de ano. Qualquer concurso que participássemos, lá ia eu indo e voltando de ônibus sozinha. Por fim, me vi bordando camisa de uma das danças, logo eu que não sabia costurar e implorando dinheiro para pagar mensalidade, ou qualquer coisa extra, como costureira, aluguel do salão da festa de fim de ano que era rateado... foi só aparecer um namorado pra me tirar o foco. Foi bem ali, quando eu me senti amada, que a dança foi jogada pra escanteio.

E perdemos contato, e vieram os bailes, o namoro sério, depois o sexo e tudo ficou enterrado naquele lugar escuro esperando o dia do Orkut ser inventado e eu reatar contato com minha professora. 

Daí que Mark Zuckerberg e sua incrível criação nos reaproximou mais uma vez. Dessa vez quem me achou foi Amlid. E ela está colocando os vídeos embolorados no Youtube, onde é possível meus queridos 5's leitores darem uma olhada na minha performance.

No vídeo a seguir, cortado e editado, segue parte da coreografia Orient Express, música de Jean Michel Jarre - 1989, idealizado pela professora Dilma do início ao fim (eu sou o "ladrão"). 
Nessa época não existia cenário, mas soube que isso mudou. Deve ser do babado!


Hoje, a professora mora em Barra de São João, estado do Rio de Janeiro e faz barulho por lá. Não raro, ela participa de concursos de dança Brasil afora, além da apresentação tradicional de final de ano onde faz aquilo tudo sozinha (pretendo inserir esse evento no meu calendário anual). Já completou 33 anos de ensino e não se cansa de se atualizar. 
Atualmente, a Amlid Jazz Dance foi indicada para integrar o Conselho Internacional de Dança. Um grato presente de final de 2012.

E eu, apesar de paradinha, ando com uma puta saudade dessa companhia. Dá um aperto gostoso no coração, porque Barra é longe pra mim! É que eu só me vejo com ela. Só me identifico ali. 
No nosso último encontro, pude ver como está linda a academia. Cada cantinho respira dança, cada sala tem o aconchego e a graça da bailarina. Cada quadro, cada espaço, pulsa saudade, felizmente mútua. A saudade da areia de um tempo que pra mim se foi.

4 comentários:

Amlid Jazz-Dance disse...

Flávia, minha eterna "maluquinha", você hoje me deu o presente mais lindo que eu podia ganhar! Você me deu a alegria de saber que o que fiz até hoje valeu a pena. Estava precisando ouvir alguma coisa do tipo, mas realmente você superou minhas expectativas. Você teve toda a sensibilidade e reconhecimento de uma forma carinhosa,terna, de um tempo gostoso ,leve, que passou tão rápido!Faria tudo de novo e de novo,porque não conseguiria dançar simplesmente. A vontade de passar a diante aquilo que aprendi era maior que tudo, e porque não dançar e ensinar a dançar? Muito melhor indiscutivelmente. Fiz a minha escolha,ficar`a sombra para os outros brilharem. Mas fui feliz assim. Obrigada por você ter entendido tudo,por acreditar no meu trabalho, por todo esse carinho. Fique sabendo que você mora no meu coração.Chorei muito, você não sabe quanto!Mais uma vez obrigada! Beijos de luz!

Bia disse...

Menina eu que fui ao passado agora, entre as mil atividades que mamãe me forçou a fazer quando criança uma delas foi jazz, mas não lembro boas lembranças dessa época! Eu amo dançar, apesar de todo meu tamanho, sou dançadeira, mas gosto é da palhaçada, tu sabe!
Mas eu nunca ia imaginar na vida que tu era uma bailarina, taí, gostei de saber!
LADRA!

DO disse...

Super 2013 tbem a vc,Engraça. Beijão!!

Lulu disse...

Ai que bacana. Sempre gostei de dançar. Imitava as chacretes, as dançarinas do fantástico de vez em qdo dou minhas reboladas qdo passa algo na tv. Nunca fiz ballet vc acredita? Quem sabe eu levava jeito pra coisa.
Big Beijos

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